Você não precisa de esforço pra apunhalar-me, e é por isso que você não mede esforço pra empurra a estaca mais um pouco dentro do meu peito. Você só esqueceu que toda dor de tão insuportável produz anestesia própria. Estou anestesiada — sua garotinha não senti mais. Você não me proporciona mais o gostinho de morte na boca e nem consigo mais sentir minh’alma rangando e derramando em sangue. E sob um céu pacientemente suicida, eu me derrama ao prantos. Não por sua súbita frieza, mas por minha covardia em não tentar acabar com essa dor. Mas hoje não quero palavras pensadas e nem conselhos simples, eu quero a morte, Clarisse. Pego meu casaco preto e estupidamente desesperada saiu entre os carros em movimento, a rua está escura, nenhum acende o pisca-alerta pra mim enxergar melhor. Essa é a vida; ninguém liga a luz pra você sair mais rápido do escuro, — me recuei, me recuei pra dentro de mim mesma, com uma súbita vontade em entrar dentro de mim e me esconder lá dentro, — com toda certeza, lá dentro seria o melhor lugar naquele momento. Suspirei… céus, como eu suspirava. Estava louca, Clarisse. — você fazia sua garotinha ficar louca — Fantasmas perseguia-me e a garotinha de cabelos louros e olhos negros corria, tentando encontrar os comandos para os seus músculos, que há muito tempo estavam paralisados. Meu coração relutava em bater, e todas as minhas forças lutavam por motivos contrários do que a situação pedia: Eu queria desistir. De maneira desesperada eu ia saindo contra os carros veloces e me adentrava a floresta, tomando cuidado para que árvores e arbustos não fossem atingidos por minha passagem acelerada. Eu não consigo encontrar a saída dessa floresta, e a cada volta que dou, sinto mais perdida do que antes. Caiu em desgraça num buraco profundo, e os fantasmas agarraram-me a carne e os ossos. Os animais que estavam por perto viram pequenos pedaços de músculos e ossos, e ouviram também o som de um coração sendo devorado por dentes silenciosos. A garotinha vivia presa dentre mandíbulas fantasmagóricas daqueles que a levaram para o lado sombrio, e a garotinha que já não era tão garota assim, temia que a morte nunca lhe chegasse. Mesmo com seu corpo destruído, sua mente trabalhava sem que nada de bom lhe fosse acrescentado.
“Maldito foi o dia em que achei que podia ser livre”, pensou a garotinha. Pobre garota de cabelos louros e olhos negros que agora existia em desistência. Pobre garotinha.
Não, não tão pobre assim. Bem lá no fundo uma luz fina o invadiu… Correu, correu, correu. — Pô!!! — um grande barulho se formou entre as arvores e os carros. Podre garotinha… Agora morta, porém, libertada.
Clara Rangel, em "Minha súbita morte.".

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