"De repente, como quem não quer nada, a saudade chega bem devagarzinho e me empurra contra a parede. No final de um dia incomum, garganta seca, corpo mole e nos olhos o único brilho existente é o brilho proporcionado pelas lágrimas que timidamente escorrem. Por que é que a saudade tem de existir? E se existe, por quê é que tem de vir aqui? Eu sou tão silenciosa quanto me é possível ser, e esse maldito sentimento insiste em voltar mais uma vez para me atormentar. Não sei porque o coração tem que doer tanto, tem que moer tanto. Sabe o quê acontece? É que vamos juntando sentimentos e lembranças e chega um momento que tudo vira uma bola de neve e te empurra pro abismo. A saudade me toca com memórias distantes sobre toques mais distantes ainda; me cheira com o perfume adocicado da mais longínqua fragrância; me beija com os lábios com o sabor da mais preciosa saliva. A saudade me pega de um jeito que a maioria das pessoas acharia feio; ela tenta me dizer o que fazer, e eu relutante, cedo. Cedo pro amor, pra tentativa de mais uma vez, ir atrás ou tentar algo que cá entre nós, já acabou a muito tempo. E não fica tanto entre nós assim, todo mundo já sabe que acabou e mesmo assim continue batendo na mesma tecla. Relembrando e tri-pensando mais a cada dia. No final é tudo igual, no fim da noite é a mesma coisa; eu só. Você não está mais aqui. E Céus! Como isso doí. Isso é tão doloroso. Como é o nome mesmo? Saudade. Ah, é. O coisinha pra doer, pra rasgar, pra deixar o corpo todo dolorido. E me pergunto; Como lidar com a falta de alguém que nunca se teve? Como ter a paciência de esperar um momento que nunca chegará? Existem perguntas impossíveis de se responder, existem sentimentos impossíveis de se compreender, e existem sensações que não deveriam existir. Mas existem, e cá entre nós, no fundo, queria que tudo isso existisse. Ele. Esse nós que fantasiei. Essa saudade. Essa imensa e desgraçada saudade."
Clara Rangel, em “Saudade”.
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