Cheiro de terra molhada, céu escuro, tempo quente, sensações que me soavam familiares. Eu sei, eu sei, parece um cliché desses bem usuais ou um déjà-vu desses ocasionais, mas eu sei, eu sei, é tão mais que isso. Eu sinto, vivo. Aquele som, o som dos passos – teus – o som dos pássaros, o sabor de todo o seu gosto no meu, a sua presença no ar, toda esta miragem me parece tão viva ainda. Uma lareira acesa, um jornal na mesa e os chinelos no chão. Ainda que sem entender bem, aquele quadro, meu bem, era o meu preferido. Talvez pelo fato de termos sido nós dois que o pintamos. Com cores, com flores, com dores, com amores. Era inevitável não olhar pra aquele quadro e notar o quanto ele era nosso, o quanto ele era nós. Nós o merecíamos mais do que quaisquer outras duas aves machucadas – porque sei que somos isto: pássaros feridos. A verdade é que todas as recordações ainda me doem, ainda penetram o tempo e fazem de nós, um “eu e você”, dois alvos de uma história, ora inacabada ora findada, quem sabe pelo tempo. E então, suportámos o seu peso, a sua dor, a minha dor. E vemos o seu sangue escorrer e estancamos depressa a fenda que o fazia transbordar – maldito tempo – quem passou a transbordar fomos nós. E por fim, as mutações, nosso quadro negro estava todo pintado de vermelho. Era nossa dor, meu bem. Exposta. Nossa dor transmitida naquele quadro que no final era apenas isso – dor. A dolência de um amor que não abrochou e nem cresceu. Ah, céus, no meu peito que agora queima mais do que a lenha daquela lareira, só fica a certeza que eu lhe amei. E para falar a verdade, eu nem sabia o que era isso, o que fazer disso, a quem contar, dizer como era bonito – mesmo que não fosse. E foi por guardamos esse amor a sete chaves, que hoje toco nessa tela que um dia esteve em branca e que num outro a colorimos e a vejo cinzenta, negra. Será que sobra apenas isso, uma tela, uma ferida aberta?! Silencio-me. Pois bem, hoje é somente um quadro coberto de pó que parecem cinzas e tudo que me resta agora, é devolve-lo – devolver-te.
Teço então minhas devoluções. Devolvo-lhe a canção que eu não compus por medo de não sair do seu gosto. Devolvo-lhe as cartas e o ursinho-polar que me deu de presente no inverno. – Ah! Que doce inverno o de oitenta e cinco. – Devolvo-lhe também o teu coração, que deixou comigo no último instante do segundo tempo, enquanto me dava a garantia que iria voltar, e não voltou. Você era a parte bonita de tudo que um dia eu vivi e ver-te partindo doeu, doeu, doeu. E eu solucei, solucei, solucei. Chorei tanto ao ponto de mergulhar-me e sair nadando nas minhas próprias lágrimas. Você segurou a minha mão, colocou no seu peito e então eu percebi: seu coração não batia. E ali, meu bem, você não precisava falar mais nada. Nosso silêncio falava por si só. Trágico, dramático, uma hipérbole infinita que magoa, rasga, rompe e dilacera por suas verdades. Nos perdemos. Nossos corações já não faziam juízo ao que sentíamos. E é por isso, que termino esta história e devolvo-te não só teu coração, mas a minha alma e o meu coração, também. Não os preciso, afinal eles morrem com você. Faleci. Falecemos juntos.
Por fim, meu doce e amargo: Adeus.
Clara Rangel e Mari Costa, em “A pintura dos pássaros feridos”.
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